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FBA ou FBM: a decisão logística da Amazon que, em Portugal, começa por uma verdade incómoda

O que ganha cada modelo, os custos FBA de 2026, o VTR acima de 95% em FBM e como a Buy Box mudou as regras. A decisão logística, produto a produto, a partir de Portugal.

FBA ou FBM a partir de Portugal: o cumprimento da Amazon em Espanha de um lado, a logística própria do outro.
FBA ou FBM a partir de Portugal: o cumprimento da Amazon em Espanha de um lado, a logística própria do outro.

Há uma frase que ouço muito a fabricantes quando falam de entrar na Amazon: “vamos de FBM, é mais simples, vendemos sem stock e sem complicações”. É aí que a conversa costuma desencaminhar-se, porque parte de um mal-entendido sobre o que cada modelo é de verdade. O FBM dá-te controlo, mas põe a logística inteira em cima de ti, com métricas de conta que a Amazon vigia ao milímetro. O FBA tira-te essa operação dos ombros, mas traz uma estrutura de custos de quatro camadas que, no produto errado, te come o lucro antes da primeira venda. Nenhum dos dois é melhor em abstrato. Cada um ganha em produtos diferentes, e este artigo serve para te mostrar as vantagens e as desvantagens de cada um, para decidires com números em vez de instinto.

Vou direto ao ponto, porque esta escolha decide margem e decide se a tua conta sobrevive. A decisão FBA ou FBM não é uma preferência operacional que se resolve ao gosto. Toma-se produto a produto, por margem, rotação e tamanho. E para uma marca portuguesa há um detalhe que os guias genéricos ignoram: nasces exportador. A Amazon não tem um centro logístico de cumprimento integral em Portugal. O núcleo físico do FBA ibérico está em Espanha. No instante em que ligas o FBA, o teu stock viaja para Madrid, Barcelona ou Saragoça, e a tua operação muda de natureza, com tudo o que isso arrasta a nível fiscal e logístico.

O panorama completo de como montar a operação está no guia como vender na Amazon a partir de Portugal em 2026. A parte dos números — quanto custa mesmo cada modelo — está a fundo num artigo dedicado a quanto custa vender na Amazon em 2026. Aqui vamos só à decisão logística: o que é cada modelo de verdade, quando ganha cada um, o que mudou na Buy Box que ressuscitou o FBM, e por que ordem decidir sem te enganares.

Numa frase: o que é FBA, o que é FBM, e quando cada um

FBA (Fulfillment by Amazon) é entregares o teu stock à Amazon, que o armazena, embala, envia, gere devoluções e apoio ao cliente. Dá-te o selo Prime, conversão alta e a via mais rápida para a Buy Box, mas para uma marca portuguesa significa armazenar em Espanha e pagar quatro camadas de tarifas. FBM (Fulfillment by Merchant) é manteres tu o stock e tratares de todo o ciclo de envio a partir de Portugal, sem Prime por defeito e com métricas de conta exigentes — a mais conhecida, a taxa de seguimento válido (VTR), tem de ficar acima de 95%. FBA ganha em produtos de rotação normal, preço baixo e tamanho gerível. FBM ganha em produtos volumosos, perecíveis, de margem apertada, baixa rotação, ou quando queres controlo total da marca. Na maioria das operações maduras, a resposta não é um ou outro: é um híbrido, produto a produto.

Essa frase contém as decisões deste artigo. Vamos a cada peça, da estrutura de custos do FBA à particularidade portuguesa que muda as contas.

1. FBA: o que ganhas, e as quatro camadas de custo que ninguém te conta ao início

Sob FBA, embalas o teu inventário a granel e envia-lo para um centro de cumprimento da Amazon. A partir daí, a Amazon faz o trabalho pesado: armazena, separa, embala, despacha cada unidade ao cliente, e absorve as devoluções e o apoio ao cliente nos idiomas locais. Liberta-te a operação para te concentrares na marca, no produto e nas vendas.

Uma ressalva antes de chegares a esse ponto: dar entrada de mercadoria nos armazéns da Amazon tem requisitos de preparação bastante estritos — caixas, etiquetagem, limites de peso por volume, agrupamento por SKU. Enviar “de qualquer maneira” não é opção; gera recusas na receção, atrasos e custos extra. É um tema com substância própria, que merece um guia à parte sobre a preparação de envios FBA.

A vantagem comercial decisiva é o selo Prime. Ele injeta-se automaticamente nos teus anúncios e dispara três coisas ao mesmo tempo: conversão, visibilidade orgânica nas pesquisas, e — historicamente — o caminho mais curto para a Buy Box. Para uma marca de rotação normal e preço de venda contido, FBA costuma ser a escolha óbvia. A minha própria marca privada, de produtos abaixo dos 20 euros, vive desta lógica: produto pequeno, rotação alta, preço baixo, onde a velocidade e o Prime do FBA compensam de sobra a tarifa.

Para a expansão europeia, o FBA tem outra vantagem estrutural: depositas stock num ponto e os programas transfronteiriços da Amazon distribuem-no e servem vários países da UE sem teres de lidar com alfândegas ou paquetaria local em cada mercado. Voltamos a isto, porque tem letra pequena fiscal.

Agora a parte que custa lucro. A estrutura de custos do FBA em 2026 deixou de ser “uma tarifa de envio” para passar a ter quatro camadas que drenam margem por sítios diferentes. Conhecê-las é o que separa quem calcula a rentabilidade real de quem se leva um susto no fecho do trimestre.

  1. Tarifas de cumprimento (fulfillment fees). O custo de separar, embalar e enviar cada unidade ao cliente, avaliado por bandas estritas de peso e dimensões. Para 2026, a maioria dos níveis subiu face a 2025. A lógica é simples: quanto maior e mais pesado o produto, mais paga, e produtos de dimensões irregulares que travam os tapetes mecânicos são penalizados.

  2. Tarifa de colocação de inventário (inbound placement fee). Esta apanha muita gente. Se exiges a comodidade de despachar todo o teu stock para um único armazém, a Amazon penaliza-te com uma tarifa extra por artigo. Para a evitar, tens de dividir o envio por várias regiões — o que encarece o transporte interno e fragmenta a mercadoria. Pagas pela comodidade ou pagas pela fragmentação. Não há almoço grátis.

  3. Tarifa por inventário baixo (low-inventory-level fee). A Amazon acabou com o modelo de stock just-in-time. Se o teu inventário projetado de um produto de boa rotação cai abaixo de um certo número de dias de cobertura, levas uma penalização por cada unidade vendida durante esse período. Em português claro: ter pouco stock passou a custar dinheiro, não só vendas perdidas.

  4. Armazenamento e o lastro da antiguidade (aged inventory). Encher o armazém para fugir à tarifa anterior também não é saída. O stock parado paga armazenamento mensal e, se envelhece para lá de certos meses na prateleira, sofre um sobrecargo de inventário antigo que te força a liquidações ou a ordens de remoção. O FBA pune o excesso e pune a falta. Tens de acertar o meio.

As quatro camadas de custos do FBA 2026: cumprimento, colocação de inventário, inventário baixo e armazenamento que reduzem a margem do vendedor.
As quatro camadas de custo do FBA que estreitam a margem: cumprimento, colocação de inventário, inventário baixo e armazenamento/inventário antigo.

Para o volume alto existe uma camada adicional de armazenamento a granel “a montante” do FBA: o AWD (Amazon Warehousing & Distribution). Mandas paletes para um armazém AWD a uma tarifa de armazenamento bem mais baixa, e os algoritmos da Amazon reabastecem o FBA automaticamente à medida que o stock se esgota; o inventário que entra por AWD fica isento das tarifas de colocação e de inventário baixo. O senão, e é grande para nós: o AWD é, até hoje, um programa centrado nos Estados Unidos. Na Europa anda apenas em fase de pilotos em mercados selecionados, sem disponibilidade geral em 2026, por isso para uma marca a operar a partir de Portugal ainda não é, na prática, uma peça acionável. Vale conhecer o nome, porque a Amazon está a estender esta lógica de armazenamento a montante de forma global — nomeadamente com o GWD (Global Warehousing & Distribution), que guarda o stock a granel perto do ponto de fabrico (por exemplo, na China) e o liberta para os países de destino quando faz falta. É o mapa para onde isto caminha, não o terreno de hoje para Portugal.

2. FBM: o controlo (e a logística) ficam contigo

Convém desfazer um mito antes de avançar. Muita gente ouve FBM e pensa em vender sem stock ou em dropshipping fácil, e nenhuma das duas coisas descreve o modelo. O dropshipping até pode funcionar bem numa loja online própria, mas dentro da Amazon raramente sobrevive: mesmo quando o fornecedor é local, gerir a conta com esse modelo — garantir que és tu o vendedor registado, controlar stock, prazos e seguimento — torna-o praticamente inviável (volto a isto mais à frente). Sob FBM, manténs a soberania sobre todo o ciclo: o inventário fica na tua fábrica ou num operador 3PL teu, e cada venda no Seller Central dispara uma reação em cadeia — a tua equipa separa, embala segundo os padrões da tua marca, contrata a transportadora, e assume em primeira linha o apoio ao cliente e as devoluções. Ganhas controlo total sobre a experiência, ao preço de carregares com toda a operação.

Quando é que o FBM ganha? Em quatro situações concretas:

  • Produtos volumosos ou sobredimensionados — mobiliário, colchões, eletrodomésticos. As tarifas FBA por peso e tamanho tornam-nos caros ou inviáveis no cumprimento da Amazon, e há casos em que o FBM passa de recomendável a obrigatório: quando o produto precisa de ser enviado em vários volumes (multivolume), o FBA não o permite, pelo que só o FBM serve. Para um fabricante destes com logística própria já montada, isto chega a ser uma vantagem competitiva — opera num terreno onde a maioria dos concorrentes nem sequer pode usar o FBA.
  • Margem apertada ou baixa rotação — catálogos profundos de artigos que rodam devagar sangram em armazenamento e antiguidade no FBA. Em FBM evitas esse campo minado de tarifas.
  • Perecíveis e produção sob encomenda — onde guardar stock à frente não faz sentido.
  • Controlo de marca — quando a caixa personalizada, o inserto, a fatura com a tua identidade fazem parte da experiência que vendes. O FBA tira-te isso.

O obstáculo do FBM é que o anúncio não traz o selo Prime por defeito, o que corta visibilidade e conversão. Mas há duas coisas a saber, e uma delas é uma armadilha portuguesa.

A primeira: as métricas de ferro. A mais conhecida é a taxa de seguimento válido (Valid Tracking Rate, VTR), que tem de ficar acima de 95%, medida por categoria de produto numa janela de 30 dias. Para um seguimento contar como válido, têm de acontecer três coisas: o número de seguimento é carregado a tempo, vem de uma transportadora reconhecida pela Amazon, e mostra pelo menos um scan real da transportadora. Cair abaixo de 95% não suspende a conta de imediato — a Amazon manda primeiro um aviso —, mas a reincidência leva à desativação dos teus anúncios em FBM naquela categoria.

E aqui entra o erro silencioso que faz cair o VTR de gente que entrega bem: o mapeamento da transportadora. Se introduzes o nome da transportadora à mão, no campo de texto livre “Outro”, e essa transportadora está integrada com a Amazon, o seguimento é marcado como inválido — mesmo que a encomenda chegue perfeitamente. Tens de selecionar a transportadora no menu de seleção, não escrevê-la. Entregas bem, o cliente recebe, e a tua métrica afunda na mesma por um detalhe de configuração. É exatamente o tipo de coisa que parece burocracia e que, na verdade, decide se a conta vive ou entra em risco.

O VTR é a métrica que mais apanha quem chega de fora, mas não anda sozinha. Em FBM és tu que respondes pela operação inteira, e a Amazon mede a saúde da conta por um painel de limites duros:

  • Taxa de pedidos defeituosos (ODR) abaixo de 1%, em 60 dias. Junta três coisas que o cliente despoleta: avaliações negativas, reclamações A-a-Z e estornos (chargebacks). É a mais crítica — passar de 1% põe a conta em risco de suspensão.
  • Taxa de envios atrasados (LSR) abaixo de 4%, em 30 dias: pedidos cujo despacho confirmaste depois da data prevista.
  • Taxa de cancelamentos antes do envio abaixo de 2,5%, em 7 dias: os pedidos que tu cancelas por não conseguires cumprir, quase sempre por falta de stock.
  • VTR acima de 95%, por categoria, como acabámos de ver.

A maior parte destes indicadores só conta para os pedidos que despachas tu; em FBA é a Amazon que responde por eles. Em FBM são teus, e nenhum deles perdoa descuido.

A segunda: o FBM tem uma porta de regresso ao Prime. Chama-se Seller Fulfilled Prime (SFP). Permite exibir o selo Prime mantendo o stock contigo, mas exige uma exatidão impecável: despachar pedidos aos fins de semana, processamento no próprio dia, tempo de entrega cumprido em 99% dos casos, atrasos de despacho abaixo de um teto apertado, e VTR acima de 95%. SFP é o FBM levado a sério, para quem tem logística regional afinada. Não é para todos, mas é a via de recuperar o Prime sem entregar o stock à Amazon.

Já vi de perto que estas métricas não são teoria. No caso de um cliente — uma conta que estava bloqueada e que recuperámos até passar dos 50.000 euros/mês em seis meses —, a diferença entre uma conta saudável e uma conta em risco joga-se precisamente aqui: VTR, taxa de pedidos defeituosos, cumprimento de prazos. Não são números de relatório. São o que a Amazon usa para decidir se te deixa continuar a vender.

3. A particularidade portuguesa: nasces exportador

Esta é a parte que os guias internacionais saltam, e que muda as tuas contas.

A Amazon não tem um centro de cumprimento integral em Portugal. Não há um armazém FBA português onde depositar o teu stock para servir clientes portugueses a partir de casa. O núcleo físico do FBA ibérico está em Espanha — Madrid, Barcelona, Saragoça. Resultado prático: no momento em que ligas o FBA, o teu inventário cruza a fronteira. Nasces exportador, por design da rede, não por escolha.

Isto tem duas consequências. A primeira é fiscal e não a desenvolvo aqui: armazenar stock em Espanha dispara obrigações de IVA espanholas e, na prática, a necessidade de NIF espanhol. A mecânica está num artigo dedicado à fiscalidade de vender na Amazon a partir de Portugal e o detalhe do registo num artigo sobre o NIF espanhol para vender na Amazon Espanha. Para aqui, basta-te reter o gatilho: o stock em Espanha é o que muda tudo.

A segunda consequência é logística e de métricas, e é onde a coisa fica interessante para o FBM. A rede de entrega ao cliente em Portugal cresceu muito, mas a entrega final continua a depender de operadores cuja consistência é desigual. O mapa atual:

  • A Amazon tem mais de 4.700 pontos de recolha em Portugal entre cacifos e pontos de parceiros.
  • Cacifos Amazon em mais de 30 estações Galp, em Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu e Braga, onde a encomenda chega tipicamente em 24 a 48 horas e o cliente tem três dias para a levantar.
  • Uma rede dos CTT que chegou a cerca de 3.800 pontos de entrega e devolução — lojas, agentes Payshop, cacifos Locky.

A flexibilidade para o cliente é boa. O problema, para ti enquanto vendedor, está na última milha porta a porta. Operadores como a Paack — uma das transportadoras que a Amazon usa em Portugal — acumulam um histórico documentado de falhas: falsos avisos de ausência, entregas dadas como feitas que não aconteceram, prazos sucessivamente adiados. Em portais de reclamações portugueses, a Paack ronda um índice de satisfação de pouco mais de 22 em 100.

Por que é que isto te importa, e não só ao consumidor? Porque uma entrega falhada ou mal registada não é só um cliente irritado. É uma reclamação, é potencialmente um pedido defeituoso, é uma pressão sobre as tuas métricas — as mesmas que decidem a Buy Box e a saúde da conta. Em FBM, escolher a transportadora certa e mapeá-la bem deixa de ser detalhe administrativo e passa a ser decisão de negócio. Quem entrega o teu produto está a escrever a tua reputação na Amazon.

4. A Buy Box mudou as regras: a velocidade destronou o preço

Para entender por que o FBM regional ressuscitou, tens de perceber o que mudou na Buy Box — a caixa de “comprar já” por onde passa a esmagadora maioria das vendas da plataforma.

Durante anos, a Buy Box foi uma corrida ao preço mais baixo. Quem baixava cêntimos ganhava. Esse modelo morreu. O algoritmo de 2025-2026 deixou de premiar o “mais barato” e passou a premiar a oferta que representa a decisão de compra mais rápida e segura para a Amazon naquele ponto geográfico. A ponderação, segundo a análise do setor (a Amazon nunca divulga os pesos exatos), reorganizou-se assim:

  • Velocidade de entrega (25-30%). O novo rei. Subiu de uns estimados 15% para o fator determinante. Um vendedor com entrega em 1-2 dias pode ganhar a Buy Box mesmo com preço mais alto que um concorrente mais barato e mais lento.
  • Preço de aterragem / landed price (~25%). Produto mais envio. Caiu do histórico 40-50% para cerca de 25%. A margem de igualação alargou-se: já não tens de ser o mais barato ao cêntimo, basta ficares dentro de uma faixa de 2-3%.
  • Avaliação do vendedor (20-25%). Fiabilidade histórica, feedback dos clientes.
  • Taxa de pedidos defeituosos / ODR (15-20%). A linha vermelha. Tem de ficar abaixo de 1%. Passar disto não só te tira a Buy Box como precipita a suspensão dos privilégios de venda.
  • Disponibilidade de stock. Produto esgotado perde o lugar sem apelação.

A leitura para ti é direta e quase contraintuitiva. Como a velocidade local pesa mais do que o preço, um vendedor FBM com stock perto de um grande núcleo urbano pode bater a oferta Prime de um FBA distante. Um FBM com processamento no próprio dia, ODR abaixo de 0,5% e entrega no prazo acima de 97% chega a vencer um FBA mais lento.

Isto é precisamente o que reabilita o FBM para uma marca que sirva bem o mercado nacional: se entregas rápido a partir do teu armazém, podes ganhar a caixa sem depender do FBA espanhol. Há um ponto a vigiar — a paridade de preços. Se a Amazon deteta que vendes o mesmo artigo mais barato noutro sítio (na tua loja, noutro marketplace), pode suprimir a Buy Box para todos. A paridade entre canais deixou de ser um luxo, ainda que existam formas de gerir os preços por canal sem disparar essas deteções — mas isso já é estratégia fina, tema para outra conversa.

5. FBM não é dropshipping. Lê isto antes de avançares

Uma nota curta e clara, porque a confusão é comum e cara. O dropshipping pode ser um modelo de negócio perfeitamente válido numa loja online tua; dentro da Amazon, raramente sobrevive, e vale a pena perceber porquê.

FBM significa que tu és o vendedor e tratas do envio. Não significa que possas comprar de um terceiro e mandá-lo enviar com a marca dele. A política da Amazon proíbe o dropshipping clássico: comprar de outro fornecedor que despacha diretamente ao teu cliente com os seus albarães, faturas ou embalagem. Para a Amazon, tu tens de ser o vendedor registado (seller of record) em tudo o que o cliente vê — albarão, fatura, embalagem exterior. Qualquer marca, logótipo ou contacto de um terceiro fornecedor tem de ser removido antes do envio.

Sem moralina: o dropshipping em que delegas o envio a um 3PL teu, com a tua identidade em tudo, é perfeitamente válido — é FBM com operador externo. O que rebenta contas é deixar aparecer o teu fornecedor nos documentos. Aí a Amazon lê violação de política e suspende. Se a tua ideia de FBM passava por “alguém envia por mim com a etiqueta dele”, a ideia tem de mudar antes de começares.

6. Como decidir, produto a produto

A decisão não se toma para a empresa toda. Toma-se para cada referência. Corre cada produto por esta sequência:

  1. Tamanho e peso. Volumoso, pesado ou irregular? O FBA penaliza-te com tarifas que provavelmente o tornam inviável. Inclina-te para FBM.
  2. Margem e preço de venda. Produto barato, de boa rotação, com margem que aguenta a tarifa de cumprimento? FBA brilha aqui — o Prime e a velocidade compensam. Margem apertada? FBM protege-te das camadas de custo.
  3. Rotação. Roda depressa? FBA. Catálogo profundo e lento? FBM, para não sangrares em armazenamento e antiguidade.
  4. Controlo de marca. A experiência de unboxing, o inserto, a fatura com a tua identidade são parte do que vendes? FBM dá-te isso; FBA não.
  5. Queres Prime? Se o Prime é decisivo para a conversão do produto e não cumpres os requisitos exigentes do SFP, FBA resolve-o de imediato. Se sirvas rápido a tua região, o FBM regional pode chegar.

A conclusão honesta, para a maioria das marcas que acompanho, é que a resposta costuma ser um híbrido: FBA para os produtos de rotação normal e preço gerível onde o Prime e a velocidade compensam; FBM para o volumoso, o lento, o de margem apertada ou o que exige controlo de marca. O híbrido é a norma das operações maduras, não a exceção. Quem se obriga a escolher “tudo FBA” ou “tudo FBM” por princípio costuma estar a deixar margem na mesa num dos dois lados.

Onde isto te deixa

Repara no que percorremos. FBA dá-te Prime, conversão e expansão a partir de um ponto, ao preço de quatro camadas de tarifas e de armazenar em Espanha. FBM devolve-te o controlo e protege-te dessas tarifas, ao preço de assumires a logística com uma métrica inegociável — VTR acima de 95% — e um erro de mapeamento de transportadora que afunda contas sem ninguém perceber porquê. A Buy Box mudou: a velocidade destronou o preço, e isso ressuscitou o FBM regional rápido. E há sempre o pano de fundo português: nasces exportador, com a entrega final dependente de operadores de consistência desigual que escrevem a tua reputação por ti.

Nenhuma destas peças se decide “ao gosto” nem “pelo que parece mais sério”. Decide-se produto a produto, por margem, rotação, tamanho e controlo. O erro caro é escolher um modelo para a empresa inteira quando a resposta certa é um híbrido calculado referência a referência — e descobri-lo tarde, com tarifas a comer o lucro ou com a métrica de seguimento a pôr a conta em risco.

A pergunta certa não é “FBA ou FBM?”. É: para este produto concreto, com esta margem, este tamanho e esta rotação, qual dos dois te deixa lucro e mantém a conta saudável? Responder a isto bem, no início, poupa-te trimestres a corrigir o que se montou ao contrário.

Se és fabricante ou marca e estás a montar a operação na Amazon — ou já vendes e suspeitas que a logística não está bem distribuída entre FBA e FBM —, posso dizer-te, antes de mexeres em stock ou tarifas, onde estás a perder margem e que produtos deviam mudar de modelo.

É a fase Review do meu método R.O.I. (Review, Optimize, Implement): um diagnóstico que olha para o teu catálogo, separa o que faz sentido em FBA do que faz sentido em FBM, e mostra-te onde a estrutura de custos ou as métricas de conta te estão a sangrar. Em linguagem de negócio, não de manual. Sem compromisso de continuares comigo depois. Trabalho com uma só marca por nicho de cada vez, por isso o diagnóstico também te diz se encaixamos.

Vê como funciona na página de serviços, ou escreve-me com a tua categoria e os teus produtos principais, e digo-te onde está a tua decisão FBA/FBM mal resolvida — antes de ela te custar mais um trimestre.

Fontes

Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre FBA e FBM na Amazon?
FBA (Fulfillment by Amazon) é entregares o stock à Amazon, que armazena, embala, envia e gere devoluções, dando-te o selo Prime. FBM (Fulfillment by Merchant) é manteres o stock contigo e tratares de todo o envio. FBA convém a produtos de rotação normal e preço contido; FBM a produtos volumosos, lentos ou de margem apertada.
Posso vender na Amazon a partir de Portugal sem stock em FBM?
Não. FBM não é vender sem stock nem dropshipping. Significa que tu manténs o inventário (na tua empresa ou num operador 3PL teu) e assumes todo o ciclo de envio e apoio ao cliente. A Amazon exige que sejas o vendedor registado em todos os albarães e faturas, sem que apareça nenhum fornecedor terceiro.
A Amazon tem centros logísticos em Portugal?
A Amazon não tem um centro de cumprimento integral (FBA) em Portugal. O núcleo físico do FBA ibérico está em Espanha, em cidades como Madrid, Barcelona e Saragoça. Em Portugal existe uma ampla rede de entrega e recolha — mais de 4.700 pontos, cacifos em estações Galp e cerca de 3.800 pontos CTT —, mas o armazenamento FBA passa por Espanha.
O que é o VTR e porque é tão importante em FBM?
O VTR (Valid Tracking Rate, ou taxa de seguimento válido) mede a percentagem de envios FBM com seguimento válido: carregado a tempo, de transportadora reconhecida e com pelo menos um scan real. Tem de ficar acima de 95% por categoria. Abaixo disso, a Amazon avisa e, se reincidires, pode desativar os teus anúncios FBM nessa categoria.
A Buy Box ainda se ganha com o preço mais baixo?
Já não. Desde 2025, o algoritmo da Buy Box passou a dar mais peso à velocidade de entrega (cerca de 25-30%) do que ao preço (cerca de 25%, abaixo dos históricos 40-50%). Um vendedor FBM rápido na sua região pode ganhar a caixa mesmo com preço ligeiramente superior ao de um FBA distante e mais lento.
Vale a pena FBA ou FBM para produtos volumosos?
Para produtos volumosos, pesados ou de dimensões irregulares, o FBM costuma ser a única opção viável. As tarifas de cumprimento e armazenamento do FBA por peso e tamanho tornam o cumprimento da Amazon caro demais nesses produtos. Mobiliário, colchões e eletrodomésticos vendem-se quase sempre melhor em FBM.
O que é o AWD da Amazon?
O AWD (Amazon Warehousing & Distribution) é um serviço de armazenamento a granel de baixo custo, a montante do FBA. Mandas paletes para o AWD a uma tarifa de armazenamento mais baixa e a Amazon reabastece o FBA automaticamente. O stock que entra por AWD fica isento das tarifas de colocação e de inventário baixo, o que estabiliza custos para quem move volume. Hoje é sobretudo um programa dos Estados Unidos: na Europa está apenas em pilotos, pelo que para uma marca a operar a partir de Portugal ainda não costuma ser acionável em 2026.
Alejandro Grau
Alejandro Grau
Consultor de marketplaces · 5 anos no Seller Central

Ajudo fabricantes e marcas de Espanha e Portugal a deixarem de olhar para a faturação e a começarem a olhar para a margem. Aceito um cliente novo de cada vez.

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